Ação da Cidadania recebe o título de Patrimônio Cultural Imaterial em cerimônia na Alerj

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A Ação da Cidadania recebeu oficialmente o Título de Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Estado do Rio de Janeiro em uma sessão solene na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) na última quinta-feira, 27 de agosto. O título foi concedido à organização pela Lei 11.222, de 10 de junho de 2026, em reconhecimento ao legado histórico e às práticas de mobilização solidária da Ação da Cidadania. A Lei é de autoria de Carlos Minc, em conjunto com os deputados Jair Oliveira, Martha Rocha, Marina do MST, Renata Souza e Yuri Moura.

A abertura da cerimônia se deu com uma apresentação da turma de canto do projeto FormAção Ação e Shell, sob a condução do professor Jorge Maia. A apresentação remeteu à presença e importância da cultura, em todas as suas formas, na trajetória da Ação da Cidadania, como poderosa ferramenta de transformação social.

O plenário da Alerj foi tomado pelas lideranças e representantes dos Comitês da Ação da Cidadania de todo o Rio de Janeiro. A constituição do Comitê Rio se deu após o lançamento da Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, em 24 de abril de 1993, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com a apresentação da Carta da Ação da Cidadania, elaborada pelo Movimento pela Ética na Política. A organização dessa mobilização no Rio de Janeiro foi parte fundamental da construção da rede de comitês que se espalharia pelo país.

A mesa da sessão foi composta pelo deputado estadual Carlos Minc, autor da lei, o professor Adair Rocha, presidente de honra da Ação da Cidadania, Maria das Graças (Gracinha), fundadora do Comitê Elos da Cidadania, Solange Brito, coordenadora do Comitê Associação de Moradores e Amigos do Bairro Jardim Primavera e Adjacências, Rodrigo “Kiko” Afonso, diretor executivo da Ação da Cidadania, e Daniel Souza, filho de Betinho e presidente do Conselho da Ação da Cidadania.

Durante a sessão, percorremos a história da Ação da Cidadania. Não sem antes homenagear presenças importantes de pessoas que participaram da construção dos primeiros anos: João Costa Batista, Marcelo Sant’anna, Ana Correa, Nair Helena Rainho, Carlos Afonso, fundador do Ibase, João Guerra, ex-conselheiro do Ibase – instituição que teve papel importante no ambiente em que nasceu a Ação da Cidadania, Ana Amélia Gadelho Lins Cavalcante, do Comitê Elos da Cidadania, e Maria da Glória Figueiredo de Souza (Glorinha), irmã de Betinho e fundadora do Comitê Flamengo.

In memoriam, relembramos e homenageamos, Dom Mauro Morelli, que teve papel importante na mobilização da Igreja e da sociedade brasileira no enfrentamento à fome, Luiz Pinguelli Rosa, ligado à construção do Comitê de Entidades Públicas no Combate à Fome e pela Vida (Coep), Zé Miguel, multiartista que teve um papel importante representando a área de Cultura da Ação da Cidadania, Terezinha Mendes, fundadora de um dos mais antigos da Ação da Cidadania, o Comitê Ponto-Chic em Nova Iguaçu, e Maurício Andrade, primeiro coordenador-geral do Comitê Rio.

Celebrar o Comitê Rio é celebrar uma história muito maior

A Ação da Cidadania nasceu em um Brasil que havia recuperado recentemente a democracia, em meio a uma sociedade civil que voltava a ocupar as ruas, a se organizar e a experimentar novas formas de participação, junto ao Movimento pela Ética na Política.

O deputado Carlos Minc, companheiro de longa data de Betinho, relembrou histórias e seu papel na luta contra a corrupção - que prejudicava o combate à fome, e em outras mobilizações sociais. Destacou a característica de Betinho conseguir vocalizar questões importantes e mobilizar a sociedade, culminando no movimento ainda forte que vemos hoje na Ação da Cidadania.

"Numa sociedade tão violenta, tão egoísta, você ver comitês que se dedicam à solidariedade, ao trabalho voluntário, a combater a fome, não só a fome de comida, mas a fome de direitos, a fome de cultura, a fome de segurança, a fome de tudo, isso é realmente importante”, reforçou o parlamentar.

O professor Adair Rocha relembrou que a inspiração da campanha contra a fome partiu de um questionamento sobre o que manteria o povo na rua a partir da ética na política. Parte dos setores progressistas relacionavam o combate à fome ao assistencialismo. Na medida em que o movimento cresce, além da urgência da comida, acontece a relação com as políticas públicas, com o conselho de segurança alimentar, tornando a fome uma questão central. “A passagem da fome como uma questão de caridade para uma questão política é a expressão maior, mais importante, desse processo histórico que a gente viveu”, afirmou Rocha.

Com os comitês da Ação da Cidadania, milhares de pessoas deixaram de ser apoiadoras de uma campanha e passaram a ser protagonistas dela

Outro contexto histórico importante relembrado foi a criação dos Comitês. A proposta era simples e, ao mesmo tempo, transformadora. Não era necessário esperar que alguém criasse uma grande estrutura para começar. No auge da campanha, quando alguém dizia ao Betinho que queria ser um comitê, ele prontamente respondia: Então você já é!

Gracinha foi uma das funcionárias cedidas para trabalhar junto à Ação da Cidadania em um andar da agência do Banco do Brasil na Avenida Marechal Floriano, no Rio de Janeiro. Participou da fundação do Comitê Rio e escreveu sua ata de fundação. Também criou o Comitê Elos da Cidadania dos Funcionários do Banco do Brasil, que permanece ativo até hoje. Ela acompanhou o momento em que aquela ideia começou a se transformar em uma rede de pessoas organizadas e empenhadas em agir em diversas frentes, e resume: “Ideias geniais foram colocadas em prática e por isso estamos aqui hoje”.

"Outro detalhe muito interessante dessa ideia de Betinho é que o comitê podia ser feito em qualquer local. Havia caso de pessoas em varandas, nas igrejas católicas, evangélicas, centros de umbanda e candomblé, associação de moradores, locais de trabalho, universidades, sindicatos, dentro de muitas ongs e até debaixo de um viaduto. Todo local era lugar de comitê. Esse é um movimento sem e extremamente democrático”, contou Gracinha, fundadora do Comitê Rio e do Comitê Elos da Cidadania

História iniciada em 1993 continua acontecendo nos bairros, nas comunidades e nos municípios brasileiros

Solange Brito, representando a rede de lideranças que mantêm a rede de comitês presente nos territórios, falou a todos os companheiros que trazem no peito a chama da solidariedade e dedicou o título a cada pessoa voluntária, que são a ponte entre a solidariedade de quem pode doar e a dignidade de quem pode receber. “Não é apenas uma honraria institucional, é a validação de uma história escrita a muitas mãos com coragem e amor ao próximo”, afirmou.

“Betinho nos ensinou que cidadania não é uma ideia abstrata, mas algo que se constrói no dia a dia com a participação direta da sociedade civil. Representando a força viva dos nossos comitês que estão nos territórios, no chão dos bairros, nas periferias, na baixada fluminense, nas favelas e nas comunidades mais remotas deste estado”. – Solange Brito, coordenadora do Comitê Associação de Moradores e Amigos do Bairro Jardim Primavera e Adjacências

O Brasil mudou, a fome mudou e novos desafios passaram a fazer parte da Ação da Cidadania

Hoje preservar a nossa história é manter-se capaz de responder às questões presentes. Kiko Afonso destacou em sua fala que a organização está lutando no dia a dia para manter essa chama acessa. Desde a saída do Brasil do Mapa da Fome em 2014, sua atuação na organização traz a visão de combater todas as outras fomes da sociedade. Mas quando estamos prontos para uma nova fase, a fome começa a voltar, em 2016, e o Natal sem Fome volta a acontecer em 2017 após dez anos de hiato. “Saímos de cerca de 4 milhões de pessoas em situação de fome para chegar a 33 milhões em 2022, com uma pandemia no meio”, afirma.

“Essas lideranças aqui são pessoas que durante a pandemia não pararam um segundo. Enfrentaram a pandemia porque sabiam da importância que elas tinham pra fazer chegar o alimento na ponta, pra atender aquelas famílias e foram o nosso braço em todo território nacional”. – Kiko Afonso, diretor executivo da Ação da Cidadania.

Kiko considera que a Ação da Cidadania é essa rede de pessoas e especialmente agora, estamos no processo de renovação dessas lideranças. A nova geração da Ação da Cidadania está sendo formada para manter o legado de Betinho no Brasil inteiro. Trata-se de “uma juventude que apesar de não ter convivido com Betinho, conseguiu absorver e entendeu a luta e o seu o propósito”, aponta.

Por fim, Daniel Souza, filho de Betinho e presidente do Conselho da Ação da Cidadania, celebrou a iniciativa que seu pai ajudou a construir e agora é reconhecida como patrimônio do Estado do Rio de Janeiro. “O interessante nessa história é que foi uma ideia seguida de uma ação e foi exatamente assim que a Ação começou”, refletiu.

Em relação a diferença entre a Ação daquela época, que seu pai acompanhou e esteve à frente apenas por quatro anos, Daniel entende a organização como uma orquestra, fazendo um agradecimento público ao Kiko, que conduz a organização hoje. Atualmente, a Ação conta com diversos times, cerca de 120 funcionários e mais de 3 mil comitês em todo o país, atuando nacionalmente e internacionalmente em diversas frentes para mudar o mundo com muita Ação.