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"Bolsonaro é 100% responsável pela crise. Nem Trump foi tão criminoso"

· Notícias,Na Mídia
Quando Betinho (que morreu em 1997, vítima da Aids) criou a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e Pela Vida, em 1993, o Brasil tentava sair da crise após o impeachment de Fernando Collor e se unia para garantir alimento a 32 milhões de pessoas. Quase 30 anos depois, Daniel de Souza segue o desafio iniciado pelo seu pai de diminuir a fome no País, escancarada pela pandemia. Missão dificultada, na avaliação dele, por Jair Bolsonaro. “O que está acontecendo no Brasil é um crime contra a nação.” Em entrevista à DINHEIRO, Daniel de Souza fala sobre a necessidade das doações por parte dos empresários, que tiveram queda em relação à primeira onda, no ano passado.
 

DINHEIRO – A pandemia aumentou a desigualdade no Brasil?
DANIEL DE SOUZA – Tenho certeza que sim, porque é justamente a população mais pobre que não tem acesso a planos de saúde. Quando a pandemia chega, ainda mais com esse auxílio emergencial ridículo, a população é atingida de forma muito violenta, porque estava próxima à linha da pobreza, quase que de sobrevivência. Essas pessoas, que muitas vezes ganham basicamente para comer no dia seguinte, foram esgarçadas. Desde que a gente começou a fazer a campanha Ação contra o Coronavírus, em março do ano passado, a procura aumentou muito. Há um acúmulo de crimes por parte do governo federal, seja em relação à vacina, ou ao uso de máscara. O Brasil está fazendo o oposto do que outros países estão fazendo e quem colhe as consequências disso é a população mais vulnerável.
 

O Brasil saiu em 2014 do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU). Como foi possível conseguir isso e qual a ºnossa realidade hoje?
O País conseguiu sair porque havia vontade política. E o que a gente viu, no primeiro ato deste governo, foi a extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). Ali ficou claro que a questão da fome não seria tratada por Bolsonaro. Na visão de especialistas da ONU, o Brasil deverá voltar ao Mapa da Fome na próxima avaliação, que será em 2022, referente a 2020. Em 2018, tínhamos 85 milhões de brasileiros com algum grau de insegurança alimentar. A gente tem alertado sobre isso, mas é como falar com surdo.
 

Qual foi o impacto da demora no retorno do auxílio emergencial e com um valor muito menor do que foi o do ano passado?
Não dá para entender o motivo de não terem feito o possível para continuar com o auxílio. O valor do auxílio emergencial é uma piada macabra. Não existe uma preocupação com a população mais pobre. Há uma má vontade do governo em relação a isso.
 

Por que essas decisões do governo Bolsonaro são tão desconectadas com a realidade do brasileiro?
Bolsonaro é desconectado há muito tempo. Ele ficou 27 anos na Câmara sem nenhuma proposta. Não existe projeto de País. Foi se rodeando de loucos, como o Ernesto Araújo (ex-ministro das Relações Exteriores) e o Ricardo Salles (ministro do Meio Ambiente). Bolsonaro já era ruim antes da pandemia. Agora ficou pior.
 

Como a política econômica do ministro Paulo Guedes se encaixa nessa análise?
Quando o ministro disse que era uma farra danada quando a empregada doméstica estava viajando para a Disney, ele deixou claro a que veio. O Bolsonaro não entende nada de economia e o Paulo Guedes virou uma espécie de centrão, no sentido de mandar no País por meio da economia. A gente está vivendo uma tempestade perfeita.
 

Como funciona a campanha Brasil sem Fome?
A gente lançou o Brasil sem Fome, que é a continuidade da Ação contra o Coronavírus, do ano passado, mas ele não vem sozinho. A ponta principal é arrecadar maior número possível de alimentos e distribuir em todo o Brasil. Junto, a gente está fazendo ações paralelas, como capacitação e ajuda para hortas comunitárias. Nossa prioridade é conseguir comida. Muitos colaboradores da Ação da Cidadania têm recebido pedidos desesperados. Temos que dar visibilidade a isso para combater o negacionismo desse governo, que assim como acredita que não há pandemia, não há queimadas, também acredita que não há fome no Brasil.
 

O ritmo de doações neste ano está menor do que na primeira onda, no ano passado?
A gente vem percebendo queda. No ano passado, estávamos distribuindo 80 mil cestas básicas por mês para todo o Brasil. Agora, não conseguimos passar de 8 mil cestas. A Covid-19 tem vacina, mas a fome não tem. O remédio para a fome é a solidariedade. Se a gente tivesse políticas públicas atuantes, essa população sentiria menos o impacto. Mas a gente fez o oposto e foi tirando a rede de proteção. O Brasil sem Fome é uma tentativa da sociedade civil para combater isso. A gente está fazendo a mesma coisa que fez no ano passado e agora está precisando convocar os empresários. São as doações deles que fazem a diferença dentro da arrecadação da nossa instituição.
 

E o que precisa ser feito para retomar essa mobilização de empresários?
A crise pode ter relação com a queda das doações. As pessoas estão cansadas. Mas existe também um pouco de banalização do estrago que está acontecendo. Se em abril do ano passado a gente imaginasse que poderíamos ver mais de 3 mil pessoas morrendo pela doença em um dia, seria um escândalo e poderia ser uma razão para a queda do presidente. Hoje temos esse número e percebemos um pouco de adormecimento, a partir de tantas notícias ruins. Mas precisamos despertar o valor da solidariedade para quem pode doar. Teve gente que doou no ano passado e hoje está precisando de cesta básica. As empresas podem fazer a diferença nesse momento. De março até dezembro, a gente distribuiu 10 mil toneladas de alimentos, mas é uma gota no oceano perto do que é necessário. O que precisa é ser entendida a importância de ajudar essa camada vulnerável. Esse é um problema de todos. O trabalho da Ação da Cidadania é pedir por essas pessoas. Até por uma questão econômica, é necessário que essa população esteja vacinada e alimentada para poder produzir.
 

O quanto a postura negacionista de Bolsonaro foi responsável pelo momento atual do Brasil?
Bolsonaro é 100% responsável pela crise que estamos vivendo. É estarrecedor. Nem Donald Trump (ex-presidente dos Estados Unidos) foi tão perverso e criminoso. O que está acontecendo no Brasil é um crime contra a nação. Desde o início, o chefe da República sabota o isolamento social, o uso de máscara e o planejamento em relação à vacina. Ele deveria ser levado ao Tribunal de Haia. Bolsonaro não age em prol da população e só se movimenta quando percebe que não há mais jeito. Esses números terríveis de mortes vão ficar para a história e daqui algumas décadas as pessoas vão se perguntar como isso foi acontecer no Brasil.
 

Qual sua avaliação sobre o movimento Unidos pela Vacina, liderado por Luiza Helena Trajano (presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza)?
Vejo com bons olhos. São empresas grandes que nos ajudam. Mas isso evidencia que as ações propostas por ela deveriam partir do governo. Não queríamos, após 27 anos de Ação da Cidadania, estar arrecadando comida. Foi necessário voltar a partir do aumento da pobreza. A rigor, não é o papel dos empresários combater a fome. Mas se o governo não faz, a gente precisa fazer. No caso das vacinas, é a mesma coisa. A Luiza sabe o que o governo federal não quer admitir, que é o fato de que quanto antes as pessoas tiverem vacinadas, a economia poderá ser retomada. O fato dela propor e executar as medidas demonstra o fracasso de ação e planejamento do Ministério da Saúde.
 

Empresários devem poder comprar vacinas para imunizar seus funcionários?
Se isso de alguma forma pode atrapalhar a chegada de vacinas para o sistema público, sou totalmente contra. A vacina precisa chegar para a população. Se a gente estivesse em um país que não acontecesse o que a gente viu em Minas Gerais, quando um grupo de empresários comprou um lote de vacinas e faz a aplicação na calada da noite (posteriormente se confirmou que eram falsas as doses) ou enfermeiras que fingem aplicar as vacinas, até poderia aceitar. Mas sabemos que vai acontecer é o pior possível. Nenhuma regra ética vai ser seguida. Se liberar, veremos gente comprando para vacinar seus familiares e a população esperando para receber as doses. Esses atalhos sempre são um caminho para a corrupção.
 

Dá para mensurar o sentimento em conseguir levar um prato de comida para tanta gente?
Se por um lado eu tenho um enorme orgulho, por um movimento criado pelo Betinho, que se transformou em ONG e se espalhou pelo Brasil, também há aquela percepção de que não seria a gente que deveria estar lutando para erradicar a fome no País. Há uma sensação de indignação pelo que estamos vivendo hoje.
 

Qual o legado de seu pai para a sociedade brasileira nesses quase 30 anos da Ação da Cidadania?
É a certeza de que se a gente não tiver a cidadania como valor principal, não há como ter uma sociedade minimamente civilizada. Uma das principais bandeiras do Betinho sempre foi a solidariedade.
 

Se Betinho estivesse vivo, o que estaria pensando deste governo?
Ele estaria horrorizado. Como tudo que ele sempre fez, tenho certeza que hoje juntaria a sociedade contra tudo isso que estamos vivendo, como quando ele uniu o País no combate à Aids e à fome. Ele sempre foi uma importante ponte de diálogo na sociedade. Betinho estaria lutando contra essa política de Bolsonaro, que juntou a fome com a morte.

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