A consolidação de uma força política internacional exige um calendário estratégico, presença coordenada e, sobretudo, a união de grupos que compartilham as mesmas urgências estruturais. Mas como essas pontes diplomáticas saem do papel e geram impactos reais?
Conversamos com a diplomata Adriana Telles Ribeiro, que nos ajuda a entender por que a união dos países em desenvolvimento é essencial para ampliar a participação nas decisões ambientais e explica como o intercâmbio horizontal de conhecimentos locais tem o poder de transformar as negociações internacionais.
Quem é Adriana Telles Ribeiro
Diplomata de carreira, Adriana chefia atualmente a Assessoria Especial de Assuntos Internacionais do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), onde atua na internacionalização das políticas sociais brasileiras e na promoção da cooperação internacional para o combate à fome e à pobreza. Conselheira da carreira diplomática desde 2006, já serviu na Missão Permanente do Brasil junto às Nações Unidas, em Nova York, nas Embaixadas do Brasil na Etiópia e no Quênia, onde foi ministra-conselheira, e no Escritório de Representação do Itamaraty em São Paulo.
MESA POSTA: Qual é a importância estratégica da união e da atuação em bloco dos países do Sul Global nos espaços de governança climática internacional?
Adriana Telles Ribeiro: A crise climática é global, mas seus impactos e as capacidades de enfrentá-la são profundamente desiguais. Muitos países do Sul Global estão entre os que menos contribuíram historicamente para as emissões acumuladas e, ao mesmo tempo, estão entre os mais expostos aos efeitos da mudança do clima — secas prolongadas, insegurança alimentar, eventos extremos e perda de meios de subsistência.
Por isso, é fundamental que esses países atuem de forma articulada nos espaços de governança climática. Essa articulação é necessária para defender temas como financiamento climático, adaptação, transição justa e combate às desigualdades, mas também para ampliar a voz do Sul Global na definição das próprias soluções para a crise climática.
Os países do Sul são também lugares onde vêm sendo construídas, muitas vezes há décadas, experiências inovadoras de convivência com condições climáticas adversas, de proteção social, de segurança alimentar e de gestão comunitária. A experiência brasileira das cisternas para captação da água da chuva é um bom exemplo. Uma tecnologia relativamente simples, desenvolvida a partir do conhecimento e da mobilização das comunidades e de associações da sociedade civil do semiárido brasileiro, tornou-se, a partir de 2003, uma política pública e hoje integra um conjunto de mais de 30 tecnologias sociais relacionadas ao acesso à água, à produção de alimentos e ao reúso. O que começou no semiárido brasileiro passou também a inspirar experiências em outros países.
Unir o Sul Global significa, portanto, não apenas fortalecer nossa capacidade de negociação, mas também reconhecer e fazer circular o conhecimento que já existe em nossos territórios.
MESA POSTA: Há algum aspecto subestimado ou pouco debatido sobre a cooperação climática entre os países em desenvolvimento que mereça maior destaque nas discussões globais?
Adriana Telles Ribeiro: Talvez ainda se fale pouco sobre o fato de que inovação climática não acontece apenas em laboratórios, universidades ou grandes centros tecnológicos. Ela também nasce em comunidades que, diante de condições adversas, desenvolveram conhecimentos e formas próprias de adaptação.
Isso é particularmente importante quando pensamos no Sul Global. A cooperação Sul-Sul ajuda a questionar a lógica de soluções apresentadas internacionalmente como se o conhecimento circulasse sempre em uma única direção: dos países mais ricos para os países em desenvolvimento.
Na cooperação Sul-Sul, não estamos falando simplesmente de transferir uma tecnologia de um país para outro. Estamos falando de compartilhar conhecimento de forma horizontal para que ele possa ser apropriado, transformado e recriado localmente. E talvez seja isso que ainda precise ganhar mais espaço na governança climática: reconhecer que muitas vezes as comunidades mais afetadas pela mudança do clima são produtoras de conhecimento e parte fundamental da construção das soluções.
MESA POSTA: Em termos práticos, quais são os caminhos e os mecanismos necessários para transformar essa realidade?
Adriana Telles Ribeiro: Em primeiro lugar, precisamos ampliar a presença e a articulação dos países do Sul Global nos espaços onde as decisões climáticas são tomadas, para ter capacidade de influenciar agendas, prioridades e a destinação dos recursos. Em segundo lugar, precisamos sistematizar e dar escala às soluções que já estão funcionando no Sul Global.
Nesse sentido, iniciativas como a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, lançada durante a presidência brasileira do G20, apoiam programas e políticas públicas eficazes, baseadas em evidências, e promovem o intercâmbio de conhecimento e cooperação — inclusive Sul-Sul e triangular — para facilitar a adaptação e a disseminação de políticas comprovadamente eficazes contra a fome e a pobreza.
Há um patrimônio enorme de políticas públicas e ambientais, tecnologias sociais e conhecimentos comunitários que muitas vezes permanece pouco conhecido fora de seus países ou mesmo de seus territórios de origem. A cooperação internacional ganha mais força quando não acontece apenas entre instituições, mas cria condições para que o conhecimento circule entre pessoas e territórios. Por isso, precisamos fortalecer os mecanismos de cooperação que permitam a circulação horizontal dessas experiências.

