Um ano após o lançamento da pesquisa Entregas da Fome, da Ação da Cidadania, a realidade dos entregadores por aplicativo segue no centro do debate sobre trabalho digno e proteção social. O estudo mostrou que 3 em cada 10 vivem em algum nível de insegurança alimentar, evidenciando como as condições de trabalho impactam diretamente a renda e o acesso à comida de quem hoje é parte central do sistema alimentar urbano.
Os dados também revelam outras dimensões dessa realidade. A maioria trabalha mais de nove horas por dia e depende exclusivamente da atividade para sobreviver. Sem vínculo formal, arcam com todos os custos e seguem desprotegidos, sem acesso a mecanismos básicos de proteção social.
Outro ponto crítico é a falta de transparência das empresas, que não esclarecem critérios de remuneração, distribuição de corridas ou bloqueios, deixando esses trabalhadores sem previsibilidade de renda.
“O trabalhador acaba aceitando essas condições pela necessidade de renda e pela falsa sensação de autonomia, mas, na prática, esse modelo transfere todos os custos e riscos para quem está na ponta. A carga de trabalho é tão intensa que, muitas vezes, impede até que ele se alimente de forma adequada. É um sistema que mantém essas pessoas em situação de vulnerabilidade e que precisa ser enfrentado”, afirma Rodrigo “Kiko” Afonso, diretor-executivo da Ação da Cidadania.
A regulação do trabalho por aplicativos ainda está em disputa no Brasil. Após meses de negociação, o projeto de lei enfrentou forte resistência da categoria, especialmente em relação à remuneração e à falta de participação na construção da proposta.
A mobilização dos trabalhadores levou ao esvaziamento do texto, a pauta foi retirada do Congresso Nacional e ainda não há consenso sobre o modelo de regulação. No curto prazo, o debate tende a ser reorganizado, com baixa perspectiva de votação ainda em 2026.
Ação da Cidadania prepara documentário sobre a pesquisa
A Ação da Cidadania lançou, em maio, o vídeo promocional do documentário Entregas da Fome, uma iniciativa da nossa área de Cultura, que levará para as telas a realidade revelada pela pesquisa, ampliando a denúncia sobre um modelo que empurra trabalhadores para a insegurança alimentar e opera sem garantias básicas e sem transparência. O filme está em fase de captação e tem direção de Rogério Sagui.
Seguimos engajados nessa pauta por entender que trabalho digno é condição básica para garantir qualidade de vida. A Ação da Cidadania não lidera essa agenda, mas atua em apoio à categoria, defendendo que não é possível construir um sistema justo sem garantir direitos mínimos a quem sustenta a logística das cidades.

