Voltar ao site

Herdeiros de Betinho agem por quem tem fome e pressa em 2020

· Notícias,Na Mídia
"Quem tem fome tem pressa.” A frase de Herbert de Souza, o Betinho (1935-1997), pronunciada há décadas, mostrou-se atualíssima em 2020. Com a pandemia, a situação de quem vivia em condição de vulnerabilidade agravou-se terrivelmente.

A ONG Ação pela Cidadania, fundada pelo sociólogo em 1993, viu que era preciso fazer mais do que já fazia.

A entidade que promove a recorrente campanha Natal sem Fome em 25 anos de atuação já distribuiu 150 milhões de refeições para 20 milhões de brasileiros.

A ação natalina promove arrecadações para a aquisição de cestas básicas que serão doadas a famílias carentes às vésperas do Natal. Mas isso não bastaria em 2020, quando as desigualdades se tornaram mais visíveis em meio à crise sanitária.

Rodrigo Fernandes Afonso, 46, e Daniel Souza, 54, respectivamente diretor-executivo e presidente do conselho da ONG, ante o agravamento da situação alimentar, usaram a estrutura e a experiência adquirida pela entidade nesses anos todos para criar o programa Ação contra o Corona.

“Esta campanha do corona é emergencial, é para atender a quem precisa do alimento hoje”, diz Afonso, corroborando a máxima de Betinho.

Souza e Afonso são amigos de infância. Conheceram-se quando seus pais, Betinho e Carlos Afonso, estavam exilados no Chile após o golpe militar de 1964. Com o golpe contra Salvador Allende, em 1973, as famílias tiveram de deixar também aquele país. Betinho e os Afonsos foram para o Canadá; Daniel foi com a mãe para a Suécia. As constantes visitas de Daniel a Betinho no Canadá não deixou que os garotos se afastassem.

Pouco após voltarem do exílio, seus pais fundaram, em 1981, o Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), que gerou mais tarde várias ONGs, entre elas a Ação pela Cidadania. “Somos a segunda geração da entidade, tentando manter o espírito dos nossos pais”, diz Afonso.

 

A organização que os dois dirigem leva alimentos a famílias necessitadas em todo o país, servindo-se para isso de rede extremamente capilarizada que se espalha pelas 27 unidades da federação.

 

Até meados de novembro, a Ação contra o Corona tinha arrecadado R$ 30 milhões, o que permitiu comprar quase 8.000 toneladas de alimentos.

 

No Natal contra a Fome, boa parte dos alimentos era doada pelas pessoas nos inúmeros pontos de coleta pelo país, como shoppings, pedágios e estações de metrô. Neste ano, devido à Covid, 99% do que foi recebido pela ONG veio de transferências bancárias.

Quem tem a missão de escoar os alimentos arrecadados pela ONG são os comitês, lideranças locais cuja chefia é exercida em 70% dos casos por mulheres negras. Só no RJ são mais de 300 desses comitês. Pelo Brasil, mais de mil.

 

“São esses comitês que recebem as cestas e decidem, com total autonomia, quem vai recebê-las”, diz Afonso.

 

Diferentemente do Natal sem Fome —“uma campanha simbólica, uma gota no oceano”, diz ele—, a Ação contra o Corona atua, sem interrupção, desde o início da pandemia, para distribuir as doações. De março a setembro, foram entregues 150 toneladas de alimentos aos comitês locais a cada semana.

 

Parcerias iniciadas há poucos anos com o Programa Mundial de Alimentos da ONU (WFP) —que levou o Prêmio Nobel da Paz neste ano— e com a FAO ajudaram a estruturar ainda mais o programa da ONG. Em 2020, os principais doadores foram iFood, PagSeguro/UOL, Universo Americanas, Camil, Mastercard, General Mills, CBF, com apoio da B2W/Ame Digital na formatação da captação.

 

A relação direta com entidades como CNBB, Unicef, Acnur (órgão da ONU que se ocupa de refugiados), Fiocruz e Sesc Mesa Brasil, que trabalham na ponta da cadeia, fazem com que os alimentos cheguem com mais facilidade e rapidez a seus destinos, em especial às comunidades quilombolas, ribeirinhas e indígenas. Tribos pataxós, no sul da Bahia, por exemplo, estão entre os beneficiários da Ação contra o Corona.

 

“Apoiar comunidades indígenas isoladas e profundamente afetadas pela pandemia foi algo que muito nos emocionou”, conta Afonso. A ONG atende a comunidades indígenas principalmente em MT, MS e na Amazônia.

 

Apesar da dificuldade com a Covid, Daniel revela algo que o surpreendeu. “Com toda esta pandemia, a sociedade tinha tudo para dizer, ‘farinha pouca, meu pirão primeiro’, mas o que estamos vendo é o contrário, é uma solidariedade gigante.”

 

Ele conta que, entre 2007 e 2017, a Ação pela Cidadania deixou de fazer o Natal sem Fome, pois as políticas do governo federal desde 2003 melhoraram muito a segurança alimentar, a ponto de, em 2014, a ONU ter tirado o Brasil do Mapa da Fome.

 

Souza lembra que, à época, delegações de países da África e da Ásia vinham ao Brasil para tentar entender como um país tão grande conseguiu em tão pouco tempo atingir aquela meta.

 

Naquele período, a ONG se dedicou a dar formação a jovens carentes. Mas, a partir de 2017, os comitês começaram a alertar os dirigentes da entidade de que a situação estava pior, e foi retomado o Natal sem Fome.

 

O dirigente antevê um 2021 bem difícil. “Pelo que mostram os dados do IBGE, vai ser muito pior do que 2020. E, com o fim do auxílio emergencial, cerca de 67 milhões de famílias serão atingidas.” “As ondas de miséria e a fome virão com força em 2021.

Esse é o desafio à nossa frente, e a Ação da Cidadania não vai fugir dele”, diz Afonso.

Todos os Posts
×

Quase pronto…

Acabámos de lhe enviar um email. Por favor, clique no link no email para confirmar sua subscrição!

OK