Em setembro, representantes do Instituto Fome Zero, entre eles Emiliano Graziano, estiveram no Galpão da Cidadania para uma conversa sobre o enfrentamento à fome e o direito à alimentação.
No mês em que celebramos o Dia Mundial da Alimentação, o debate segue no Mesa Posta. Conversamos com Emiliano sobre os desafios para manter e fortalecer as políticas públicas de combate à fome, as desigualdades que ainda marcam o acesso à alimentação no Brasil e como a proteção social pode se antecipar às crises alimentares.
Entrevistado: Emiliano Milanez Graziano da Silva
Qual é o papel do Dia Mundial da Alimentação e da sociedade civil na manutenção e defesa das políticas públicas de combate à fome? O que é preciso para que essas conquistas não retrocedam diante de crises orçamentárias ou mudanças de governo?
O Dia Mundial da Alimentação é uma oportunidade para lembrar que uma alimentação de qualidade não é um favor, uma concessão ou uma política de governo. É um Direito Humano. E, justamente por isso, o combate à fome é uma prioridade e precisa ser tratado como uma política de Estado, com continuidade independentemente dos ciclos políticos e eleitorais.
A experiência brasileira mostrou que é possível reduzir a fome quando existe uma combinação de crescimento econômico, geração de emprego, valorização da renda, transferência de renda, fortalecimento da agricultura familiar, alimentação escolar e outras políticas articuladas. Recentemente o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome, mas isso não significa que a missão esteja concluída. Significa que temos uma conquista que precisa ser consolidada e amplificada para todo o país e populações vulneráveis e/ou marginalizadas.
Nesse processo, a sociedade civil tem um papel fundamental. Ela ajuda a manter a luta contra a fome viva, fiscaliza as políticas públicas, produz conhecimento, mobiliza comunidades e impede que o tema desapareça da agenda quando outras crises surgem. A história brasileira mostra a importância dessa mobilização, figuras como Josué de Castro, Betinho e toda a rede de organizações que ajudou a colocar a fome no centro do debate nacional cumpriram seu papel de cidadãos e são o exemplo para todos nós hoje.
Para evitar retrocessos, precisamos institucionalizar as políticas, garantir orçamento, fortalecer o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional e construir mecanismos permanentes de monitoramento. Não podemos começar do zero a cada mudança de governo. O direito à alimentação precisa estar acima das circunstâncias políticas do momento.
Quais expressões a fome assume no Brasil atual, e como esse retrato se compara ao cenário da fome no mundo?
A fome no Brasil atual assume diferentes expressões e está profundamente marcada pelas desigualdades territoriais e sociais. Ainda existe a fome propriamente dita, vivida por quem não consegue acessar regularmente a quantidade necessária de alimentos. Mas há também a insegurança alimentar moderada, quando as famílias precisam reduzir a qualidade e a variedade da alimentação ou convivem com a incerteza de ter comida suficiente nos dias seguintes.
Esse problema não se distribui igualmente pelo território. Hoje, a insegurança alimentar moderada e grave continua proporcionalmente mais elevada na Amazônia, no Norte e no Nordeste, atingindo sobretudo as áreas rurais, as periferias urbanas, os povos indígenas e comunidades tradicionais e as famílias chefiadas por mulheres. Portanto, não basta dizer que o Brasil reduziu a fome na média nacional. É preciso olhar onde ela permanece concentrada e quais grupos continuam precisando de atenção e políticas/ações específicas.
De forma mais perversa, nosso país hoje tem a fome coexistindo com outra forma de má alimentação: o sobrepeso e a obesidade. Milhões de brasileiros consomem produtos ultraprocessados não apenas por escolha, mas porque são baratos, convenientes e amplamente disponíveis, enquanto alimentos frescos e saudáveis muitas vezes custam mais ou são difíceis de encontrar. A obesidade é, assim, também uma expressão de políticas públicas falhas, da pobreza, da desigualdade e de sistemas alimentares que falham em garantir dietas adequadas em quantidade mas também em qualidade.
No mundo, o cenário é preocupante. A FAO estima que 645 milhões de pessoas enfrentaram a fome em 2025. Houve redução pelo terceiro ano consecutivo, mas o ritmo é insuficiente para erradicá-la até 2030. Além disso, cerca de 2,7 bilhões de pessoas ainda não conseguem pagar por uma dieta saudável.
O Brasil demonstrou que políticas públicas coordenadas podem retirar milhões de pessoas da fome. Agora, o desafio é avançar para uma nova etapa do Fome Zero: enfrentar as desigualdades territoriais e garantir, em todos os lugares, não apenas comida suficiente, mas uma alimentação adequada, saudável e sustentável.
Neste Dia Mundial da Alimentação, o que ainda falta para que as políticas de proteção social no Brasil consigam se antecipar às crises alimentares?
O Brasil construiu uma rede de proteção social muito importante. Temos instrumentos como o Cadastro Único, o Bolsa Família e uma estrutura de assistência social que nos permite chegar a milhões de famílias. O desafio agora é fazer com que essa rede não seja apenas uma rede de resposta, mas também uma rede de prevenção.
Estamos vivendo uma realidade em que as crises climáticas estão se tornando mais frequentes e mais intensas. Secas, enchentes, ondas de calor e outros eventos extremos afetam a produção de alimentos, aumentam preços, destroem meios de produção e subsistência e atingem primeiro e com maior impacto às famílias mais vulneráveis.
Não faz sentido esperar a enchente acontecer para depois começar a organizar a resposta. Muitas vezes sabemos, com antecedência, que um evento climático extremo está chegando. O que precisamos é conectar essas informações aos sistemas de proteção social para que o Estado possa agir antes que a crise se transforme em fome.
O Instituto Fome Zero vem trabalhando justamente nessa agenda de Proteção Social Antecipatória. A proposta é integrar informações climáticas, sistemas de alerta, Cadastro Único e programas sociais para que recursos e benefícios possam chegar às famílias vulneráveis antes do impacto de um desastre. Estudos indicam que cada dólar investido em ações antecipatórias pode evitar até US$ 5,17 em perdas.
Isso representa uma mudança importante de paradigma: deixar de perguntar apenas “como vamos responder à crise?” e começar a perguntar “o que podemos fazer hoje para impedir que essa crise produza fome amanhã?”.
Emiliano Milanez Graziano da Silva é graduado em Engenharia Agronômica pela ESALQ/USP em 1999, MBA em Marketing pela FGV Ohio University, MBA em Gestão de Projetos pela FIA/USP e Mestre em Sustentabilidade pela FGV em 2021. Fundador e Diretor do Instituto Fome Zero, atua nos três setores, como gestor de programas de Segurança Alimentar e Mobilização Social nas prefeituras de São Paulo e ABC Paulista. Foi responsável pelo departamento de sustentabilidade de empresa multinacional e consultor para organizações do Terceiro Setor de Comércio Justo, Agroecologia, Permacultura, Agricultura Familiar, Desenvolvimento Sustentável, Segurança Alimentar, Mobilização de Recursos e Sustentabilidade em âmbito nacional e internacional.

