Confluência Sul-Sul: Por que o Sul Global precisa fortalecer a sua voz na governança climática?

Mais do que participações simbólicas, uma nova coalizão da sociedade civil se organiza para garantir que as soluções para a crise ambiental também sejam formuladas por quem vive na linha de frente de seus impactos

· Artigos

Existe uma pergunta central no debate ambiental contemporâneo: por que uma coalizão da sociedade civil do Sul Global importa mais do que uma participação simbólica em conferências internacionais? A resposta está em um descompasso estrutural evidente: a profunda desigualdade socioambiental entre quem decide e quem sofre. Foi para enfrentar essa distância que nasceu a Confluência Sul-Sul, coalizão co-liderada pela Ação da Cidadania e pelo Instituto de Referência Negra Peregum.

O Sul Global não busca apenas pedir um lugar à mesa, mas construir a sua própria arquitetura de incidência, com agenda, financiamento e lideranças próprias, garantindo que quem vive o impacto participe diretamente da tomada de decisão.

Para entender a importância dessa articulação, basta observar o alerta de Mary Robinson, ex-presidente da Irlanda, que lembra que as pessoas na linha de frente das mudanças climáticas muitas vezes são as que menos contribuíram para as causas da crise. O cantor, compositor e ex-ministro Gilberto Gil reforça esse espírito, destacando que o Sul Global não está nos espaços de governança para ser uma potência hegemônica, mas sim uma potência solidária com o potencial de todas as nações.

O modelo econômico global sempre dependeu fortemente dos recursos naturais dos países do Sul — mas os principais espaços de poder continuam concentrados ao norte do mapa. As organizações sociais do Sul Global participam de forma muito limitada dessas arenas devido a entraves econômicos e barreiras diplomáticas, como a rejeição de vistos.

Como resultado, as assimetrias socioambientais recaem sobre as populações mais vulneráveis, e os números tornam essa desigualdade concreta. Na África Subsaariana, quase seis em cada dez pessoas que moram em cidades vivem em assentamentos informais, sem infraestrutura básica — proporção que em algumas localidades chega a 80%, deixando populações inteiras diretamente expostas a enchentes e calor extremo.

Na Ásia-Pacífico, região que reúne mais da metade da população do planeta, o Banco Asiático de Desenvolvimento calcula que a inação climática pode custar quase 17% do PIB regional até 2070, com até 300 milhões de pessoas sob o risco de perderem suas casas para o avanço do mar. Já na América Latina e Caribe, a região em desenvolvimento mais urbanizada do mundo, a CEPAL estima que seria necessário investir de 7% a 19% do PIB regional por ano até 2030 apenas para adaptação, mas o financiamento climático que chega hoje aos territórios não passa de insuficientes 0,5%.

Trabalhar de forma conjunta entre os países em desenvolvimento é uma prática com raízes históricas, impulsionada em 1955 na Conferência de Bandung e fortalecida em 1978 pelo Plano de Ação de Buenos Aires da ONU.

Na governança climática, a Convenção-Quadro da ONU de 1992 já prevê que, como nem todos os países contribuíram igualmente para a crise, não é justo que paguem a mesma conta. Essa necessidade de união também encontra base em pensadores essenciais para a compreensão do Sul Global. Estudiosos das Epistemologias do Sul explicam que as soluções climáticas só funcionam quando desenhadas por quem vive nos territórios, para que o Sul deixe de ser apenas "estudado" e passe a decidir.

Além disso, a ecologia decolonial demonstra que o racismo, a colonização e a crise ambiental vêm da mesma raiz de exploração, motivo pelo qual a Confluência trata o racismo ambiental como um eixo central de atuação. Por fim, o ambientalismo dos pobres aponta que os conflitos ecológicos globais nascem da desigualdade no acesso à terra, à água e aos recursos naturais, uma realidade de exclusão de comunidades tradicionais presente tanto no Brasil quanto no cenário internacional.

Uma organização isolada não tem capacidade para reverter essa dinâmica, mas uma coalizão transforma demandas dispersas em uma força política única. Foi com esse foco que a Confluência Sul-Sul ativou suas missões de incidência neste primeiro semestre de 2026 em três arenas globais.

A coalizão foi apresentada publicamente na Rio Nature Climate Week; participou ativamente do SB64 em Bonn, onde apoiou o reconhecimento da população afrodescendente pela UNFCCC; e marcou presença na London Climate Action Week, momento em que a Pan-African Climate Justice Alliance (PACJA) passou a integrar formalmente a sua governança.

Esse movimento estratégico conecta o legado da COP30, em Belém, a um arco de dois tempos: a validação da coalizão na COP31, na Turquia, e a sua consolidação final na COP32, em Adis Abeba, a primeira COP africana em mais de uma década.

A crise climática já se manifesta como uma crise de desigualdade, governança e justiça social. A legitimidade da governança climática se fortalece com a presença de quem está na linha de frente.