Escala 6x1: Quando o cansaço confisca o direito de comer bem

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A garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) no Brasil enfrenta um obstáculo que antecede o próprio valor nutricional dos alimentos, o confisco do tempo da classe trabalhadora. No advocacy, entendemos que combater a fome e a desigualdade vai além de garantir comida saudável no prato, passa por assegurar condições dignas de trabalho, tempo de descanso e o direito de viver para além do emprego. Afinal, a forma de se alimentar não é apenas uma escolha individual, mas o resultado de um sistema condicionado por decisões políticas, econômicas e regulatórias.

Quando falta tempo, faltam também as condições concretas para planejar, preparar e consumir alimentos saudáveis. Essa escassez empurra a população para soluções imediatas. Segundo levantamento mais recente, 40% dos brasileiros afirmam ter o hábito de pedir comida via delivery. Nesse cenário, a escala de trabalho 6x1 também contribui para uma alimentação mais rápida e barata, uma vez que a jornada exaustiva dificulta o consumo de alimentos in natura e favorece a dependência de produtos ultraprocessados, que se tornam a alternativa mais viável para quem não dispõe de tempo.

Garantir o direito humano à alimentação saudável, portanto, exige ir além de campanhas educativas ou da responsabilização individual. É necessário enfrentar as condições estruturais que moldam o comportamento alimentar, incluindo a regulação das jornadas de trabalho e a valorização do tempo de descanso. Garantir comida saudável no prato também passa por garantir tempo de qualidade. O Estado deve regular as estruturas que produzem essa escassez de tempo, garantindo que o cuidado e a saúde não sejam subordinados à lógica do lucro.