Você é responsável por tudo o que come?

· Artigos

Dados do Ministério da Saúde mostram que o número de adultos obesos no país cresceu 118% entre 2006 e 2024. O Brasil vive hoje uma dupla carga da má nutrição: enquanto a fome persiste, cresce também a obesidade e o sobrepeso, o que não representa uma contradição, mas a expressão da desigualdade no acesso à alimentação de qualidade.

Esse avanço reflete a substituição de sistemas alimentares tradicionais por um modelo industrial, no qual a comida de verdade se torna menos acessível e os ultraprocessados passam a ocupar esse espaço.

Nesse cenário, destaca-se o aumento do consumo de ultraprocessados, um fenômeno que não se origina em mudanças comportamentais isoladas, mas em uma alteração sistêmica profunda. Portanto, a alimentação não é apenas uma escolha individual, uma vez que as pessoas escolhem dentro do que conseguem acessar; ela é o resultado de políticas públicas, regulação e interesses econômicos.

Diferente dos alimentos in natura, as formulações ultraprocessadas são desenhadas para maximizar o consumo, já que são viciantes e de baixa saciedade e carregadas de aditivos, essas mercadorias ocupam as prateleiras com preços baixos e um marketing agressivo que molda o consumo rápido. Esse modelo evidencia que produtos que não são comida vêm substituindo a alimentação tradicional, e que o lucro da indústria tem se sobreposto à saúde coletiva. Nesse contexto, o acesso à comida saudável não é um privilégio, mas um direito humano fundamental que deve prevalecer sobre interesses econômicos.

Nossa atuação em advocacy se dá por meio de incidência política, articulação e pressão institucional, ao lado de parceiros como a Promoção da Saúde e a Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável. Juntos, viabilizamos a taxação das bebidas açucaradas em 2025, uma conquista importante da sociedade civil e um avanço na regulação de ultraprocessados no Brasil, ainda que parcial e inserido em uma disputa mais ampla sobre como o Estado regula o sistema alimentar.

A ausência de uma política nacional estruturada para o enfrentamento aos ultraprocessados resulta hoje em uma regulação fragmentada. Atualmente o país opera sob um mosaico de iniciativas isoladas que perpassam a rotulagem nutricional, as diretrizes do Guia Alimentar e a política fiscal, sem uma articulação centralizada que proteja efetivamente a saúde pública.

Para reverter essa lógica e integrar essas pautas, nossa articulação em rede atua:

  • Defesa da saúde pública: Acompanhamos o debate sobre o uso de agrotóxicos, exigindo limites rigorosos para proteger a qualidade dos alimentos;
  • Fortalecimento de políticas públicas: Atuamos pelo robustecimento do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), garantindo acesso à comida de verdade para quem mais precisa;
  • Apoio à produção e base social: Incentivamos a agricultura familiar e as cozinhas solidárias, pois promover saúde e dignidade exige transformar a forma como o alimento é produzido e distribuído.

A saúde no prato do brasileiro não é um presente, mas um terreno de disputa frente aos interesses que lucram com a má alimentação. O sistema que favorece os ultraprocessados não recuará por conta própria, já que é sustentado por decisões políticas e interesses econômicos. Enfrentá-lo exige mobilização permanente e regulação estatal firme.