As crises chegam juntas à vida das pessoas. As respostas também precisam chegar juntas.
A crise climática e a insegurança alimentar devem ser tratadas como uma única e mesma emergência. Entender essa relação permite construir respostas mais integradas enquanto sociedade.
O clima influencia a capacidade da terra de produzir alimentos porque a maior parte da produção agrícola mundial depende da natureza para seu desenvolvimento. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), cerca de 80% da produção agrícola global não tem irrigação e depende das chuvas para produzir cerca de 60% dos alimentos básicos consumidos no mundo.
Secas, excesso de chuvas, incêndios e outras alterações climáticas extremas, resultantes da ação humana, podem impactar diretamente a produção, a distribuição e o acesso aos alimentos. Quando o clima muda pela ação humana, muda também onde, quanto e com que segurança os alimentos podem ser produzidos, armazenados e acessados.
Os impactos sobre as populações mais vulneráveis
As populações que já vivem em situação de vulnerabilidade social e econômica são as primeiras e mais duramente atingidas. No Brasil, esse fenômeno atinge com mais intensidade as populações em situação de vulnerabilidade e de forma diferente os territórios e regiões, assim como impacta mulheres, pessoas negras, crianças, idosos, agricultoras e agricultores familiares, povos indígenas, quilombolas e periferias urbanas.
A insegurança alimentar, portanto, não é somente consequência do clima. Ela é seu termômetro mais sensível.
Como a crise climática afeta a alimentação
A crise climática já não pode ser tratada como um tema distante da agenda alimentar. Secas, enchentes, ondas de calor, geadas fora de época e mudanças no regime de chuvas afetam diretamente a produção de alimentos, a disponibilidade de água, os preços, a renda das famílias e a permanência das pessoas em seus territórios.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) reconhece que as mudanças climáticas já impactam os sistemas alimentares e que grupos como pequenos produtores, povos indígenas, comunidades tradicionais, mulheres, crianças e famílias de baixa renda estão entre os mais vulneráveis.
Esses impactos acontecem em cadeia. Quando uma safra se perde, a produção diminui. Quando a água falta, a lavoura e a criação animal ficam ameaçadas. Quando a oferta cai, os preços sobem. Quando a comida fica mais cara, as famílias mais pobres são as primeiras a reduzir quantidade e qualidade da alimentação.
O Global Report on Food Crises 2026 mostra que os eventos climáticos extremos seguem entre os principais fatores de insegurança alimentar aguda no mundo, ao lado de conflitos e choques econômicos.
A realidade brasileira
No Brasil, essa relação é estrutural. O sistema agroalimentar é afetado pela crise climática, mas também contribui para agravá-la.
O IPCC estima que os sistemas alimentares respondem por cerca de 21% a 37% das emissões globais de gases de efeito estufa, considerando produção, uso da terra, processamento, transporte, consumo e desperdício. No caso brasileiro, as mudanças no uso da terra, fortemente ligadas ao desmatamento, seguem como uma das principais fontes de emissões, segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) e informações oficiais sobre o setor.
Outro ponto central é a perda de diversidade. Sistemas alimentares muito dependentes de poucas commodities, grandes cadeias e dietas padronizadas ficam menos preparados para enfrentar choques climáticos. O próprio IPCC destaca que a diversificação dos sistemas alimentares, das sementes, da produção e das dietas é uma estratégia importante para reduzir riscos.
Por isso, proteger a agricultura familiar, os povos indígenas, os quilombolas, a sociobiodiversidade e os sistemas alimentares locais é também uma medida de adaptação climática e de segurança alimentar para todas as pessoas.
Um momento decisivo para essa agenda
Nos últimos anos, o debate internacional passou a reconhecer de forma mais explícita que não será possível enfrentar a crise climática sem enfrentar simultaneamente a fome, a pobreza e as desigualdades. A Declaração de Belém da Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza, lançada durante a COP30, reforçou essa conexão ao defender uma ação climática centrada nas pessoas, na segurança alimentar e na proteção social.
Ao mesmo tempo, novas projeções científicas indicam a formação de um fenômeno El Niño de intensidade moderada a partir desse ano de 2026, com potencial de afetar regimes de chuva, disponibilidade hídrica e produção agrícola em diferentes regiões do mundo. Embora seus impactos ainda dependam de diversos fatores, o cenário reforça a necessidade de acompanhar de perto os efeitos das mudanças climáticas sobre os sistemas alimentares.
As respostas também precisam chegar juntas
Apesar disso, o financiamento ainda não chega onde mais precisa. Relatórios do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (IFAD) e da Climate Policy Initiative apontam que apenas 1,7% desses recursos chega à agricultura de pequena escala nos países em desenvolvimento.
Clima, fome e pobreza acontecem juntos na vida das pessoas, mas as respostas ainda chegam separadas. Por isso, a discussão sobre financiamento integrado é urgente para transformar compromissos internacionais em comida, renda, proteção social e resiliência nos territórios.
Os debates internacionais mais recentes, da Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza aos eventos de preparação para a COP, apontam para a necessidade de superar a fragmentação entre as agendas de clima, desenvolvimento e proteção social. Se os impactos chegam juntos à vida das pessoas, as soluções também precisam chegar de forma integrada.
Por que essa agenda é estratégica?
A relação entre clima e alimentação é uma das agendas mais estratégicas para os próximos anos porque reúne dois desafios centrais do nosso tempo: garantir comida para uma população crescente e, ao mesmo tempo, enfrentar os impactos das mudanças climáticas.
Durante muito tempo, a crise climática foi tratada principalmente como um problema ambiental. Hoje, as evidências mostram que ela também é uma questão socioambiental por ser fruto da ação humana e impactar a alimentação, a saúde, a renda e o desenvolvimento.
Para a Ação da Cidadania, isso significa defender que os investimentos em adaptação climática fortaleçam a agricultura familiar, os sistemas alimentares locais, a proteção social, a sociobiodiversidade e o acesso à alimentação adequada. Mais do que proteger o meio ambiente, trata-se de proteger a capacidade das pessoas de produzir, acessar e consumir comida de verdade.
Não existe combate à fome sem ação climática. E não existe adaptação climática sem segurança alimentar.

