Prevenção, monitoramento e combate à desinformação: os desafios do Brasil diante do novo El Niño

Em entrevista à Ação da Cidadania, o meteorologista Márcio Cataldi explica por que fortalecer a prevenção, investir em planejamento e combater a desinformação são medidas essenciais para reduzir os impactos dos eventos extremos

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As projeções para um novo episódio de El Niño voltaram a colocar as mudanças climáticas no centro do debate público. Embora o fenômeno faça parte da variabilidade natural do clima, ele ocorre em um contexto marcado pelo aquecimento global, pelo aumento da temperatura dos oceanos e pela maior frequência de eventos extremos, como secas, enchentes e ondas de calor.

Diante desse cenário, fortalecer a prevenção, ampliar o acesso à informação qualificada e preparar os territórios antes que as emergências aconteçam é cada vez mais necessário.

Para aprofundar esse debate, a Ação da Cidadania conversou com Márcio Cataldi, meteorologista, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenador do Laboratório de Monitoramento e Modelagem do Sistema Climático (LAMMOC). Na entrevista, ele fala sobre os desafios do monitoramento climático, o impacto da desinformação na implementação de políticas públicas e a importância de transformar a capacidade de resposta do país em uma cultura permanente de prevenção.

Qual é o principal desafio do Brasil para enfrentar os impactos das mudanças climáticas hoje?

Márcio Cataldi: O monitoramento é uma das principais barreiras e o Brasil ainda está atrás de outros países, embora tenha evoluído com o suporte de satélites e radares. Contudo, a desinformação caminha lado a lado com essa dificuldade. O negacionismo climático confunde a população e impede diretamente que políticas públicas essenciais, inclusive as de ampliação do próprio monitoramento e da resiliência científica, sejam implementadas de fato.

Como governos e sociedade civil podem enfrentar a desinformação climática?

Márcio Cataldi: A desinformação utiliza uma tática planejada de disparos contínuos de notícias falsas ou recortes da realidade que não dão tempo para o cidadão refletir. Por isso, os métodos convencionais de comunicação não têm funcionado bem. A saída é buscar novas abordagens para sensibilizar as pessoas, especialmente os mais jovens. O laboratório da UFF tem apostado na difusão do conhecimento por caminhos alternativos, como a criação de livros que misturem de forma didática ficção científica e conceitos acadêmicos consolidados, com sua consequente distribuição em escolas, criação de jogos de tabuleiro e o desenvolvimento de um videogame educativo de acesso livre sobre reciclagem, reflorestamento, efeito estufa e clima.

Por que o novo El Niño exige atenção neste momento?

Márcio Cataldi: É preciso evitar o alarmismo exagerado, mas o fenômeno atual exige atenção por dois fatores científicos. Primeiro, porque, na sua fase inicial de incubação, ele já se consolidou como o mais forte do século e desde o início dos registros confiáveis. Segundo, porque ocorrerá com o planeta e com todos os oceanos muito mais quentes do que em qualquer outro El Niño registrado no passado, criando uma combinação de fatores que nunca vivenciamos antes.

Qual deve ser a prioridade da prevenção neste momento?

Márcio Cataldi: O passo prioritário é a criação e ampla divulgação de um mapeamento objetivo e de fácil entendimento das zonas de risco regionais, detalhando quais problemas cada área poderá enfrentar e em qual período. Órgãos oficiais, como o INPE e o CEMADEN, já trabalham nisso. Esse mapa deve orientar instituições e gestores a prepararem suas ações com antecedência.

O que ainda falta para o Brasil lidar melhor com os eventos extremos?

Márcio Cataldi: A nossa real capacidade de resposta preventiva. Infelizmente, o Brasil só reage depois que o desastre acontece. A sociedade civil e as associações comunitárias possuem uma capacidade admirável e imediata de mobilização solidária para salvar vidas no pós-crise. Contudo, os governos falham em gerar um legado técnico. Não há planejamento de previsão e programação preventiva de longo prazo; o poder público gasta com o pós-evento, mas não implementa as reformas estruturais necessárias para que as próximas chuvas ou secas causem menos danos à população.