Foto: Roberta Aline / MDS
A Ação da Cidadania participou em maio, da 3ª Reunião do Board of Champions da Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza, realizada na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em Paris,. O encontro discutiu a passagem da Aliança para uma fase de implementação efetiva e de impacto social sustentado, com foco no combate à fome e à pobreza e na construção de mecanismos de financiamento integrado.
Entre os principais temas esteve uma questão que vem ganhando força desde a COP30 de Belém: como conectar clima, combate à fome e financiamento internacional em um momento em que as crises chegam juntas à vida das pessoas, mas os recursos continuam separados.
A alta no preço dos alimentos, os eventos climáticos extremos, a perda de renda, a fome e a pobreza não acontecem de forma isolada. Esses fenômenos se cruzam no cotidiano das famílias, principalmente entre as populações mais vulneráveis, em situação de pobreza e insegurança alimentar. Por isso, cresce o entendimento de que as respostas internacionais precisam ser mais integradas entre agendas climáticas, econômicas, sociais e humanitárias.
Como integrante do grupo de organizações da sociedade civil que compõem de forma coordenada o Assento Compartilhado do Pilar do Conhecimento no Conselho de Campeões da Aliança Global, a Ação da Cidadania entende que desenvolvimento econômico e social não podem seguir caminhos separados. Assim, temos defendido que o combate à fome, a proteção social adaptativa, a agricultura familiar, os sistemas alimentares resilientes e a adaptação climática devem andar juntas.
Para a organização, adaptação climática não é apenas infraestrutura ou carbono. Não existe adaptação climática real sem comida no prato, renda e proteção social. Nesse contexto, a Aliança vem discutindo formas de aproximar diferentes fontes de financiamento - públicas, multilaterais, filantrópicas e climáticas - em torno de planos construídos pelos próprios países, respeitando suas prioridades e necessidades.
A crise climática já afeta o preço dos alimentos, a produção, a renda e a vida nos territórios. A fome não é apenas consequência da pobreza. Ela também cresce quando eventos climáticos afetam preços, produção, renda e acesso à alimentação adequada.
Nos fóruns internacionais e nas mesas de decisões da OCDE, seguimos defendendo que o compromisso global de combater a fome e a pobreza deve ser definido e executado a partir das realidades locais e com agenda conjunta de enfrentar a crise climática. Investir nessas pontes também é construir resiliência climática e sistemas alimentares mais resilientes, protegendo as populações mais vulneráveis e garantindo que os recursos cheguem de forma inteligente ao território e quem mais precisa
Não é apenas sobre mais dinheiro
A discussão sobre financiamento integrado ganha força em um contexto de diminuição expressiva dos recursos globais destinados ao enfrentamento das desigualdades sociais, diante do contexto de guerras e da erosão dos acordos bilaterais.
A disputa atual não é apenas sobre ampliar recursos, mas a questão central é como financiar melhor: com mais coordenação entre políticas e recursos e foco nas necessidades reais das populações.
Ao mesmo tempo, organizações da sociedade civil têm reforçado a necessidade de que os recursos internacionais consigam chegar de forma mais rápida e concreta aos territórios mais vulneráveis.
Dados debatidos no âmbito da Aliança Global mostram que, embora o financiamento climático para adaptação tenha alcançado US$ 22 bilhões em 2024, apenas US$ 186 milhões foram destinados à proteção social entre 2022 e 2023. Os pequenos agricultores, justamente os mais afetados pela crise climática, recebem apenas 1,7% do financiamento climático global.
Os debates realizados na OCDE e na Aliança Global também apontam para a necessidade de reorientar crédito rural, subsídios e políticas públicas para sistemas alimentares mais sustentáveis e resilientes. Isso inclui fortalecer a agricultura familiar, apoiar a transição agroecológica, valorizar a sociobiodiversidade e ampliar os circuitos locais de produção e comercialização de alimentos.
O que muda com o financiamento integrado
Entre as propostas apresentadas está a criação de um mecanismo de financiamento integrado no âmbito da Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza. Em vez de criar um novo fundo, a proposta busca utilizar o modelo Ready–Set–Go, conectando fontes de financiamento a planos nacionais já existentes.
A proposta busca aproximar recursos internacionais das necessidades reais das populações, reduzir a fragmentação entre diferentes agendas e fortalecer políticas públicas voltadas à proteção social adaptativa, aos sistemas alimentares resilientes e à adaptação climática.
O objetivo da nossa área de Advocacy e Políticas Públicas da Ação da Cidadania é garantir que esse financiamento priorize países e populações identificados com dupla vulnerabilidade, marcados pela sobreposição de impactos climáticos e contextos de fragilidade social ou conflitos.
As discussões também apontam para a necessidade de associar esses recursos ao fortalecimento da transição agroecológica e da agricultura familiar, da preservação ambientale daconstrução de sistemas alimentares mais resilientes.
Outro ponto central é garantir a participação ativa das organizações da sociedade civil na implementação e no acompanhamento das políticas nos territórios.
Para a Ação da Cidadania as organizações da sociedade civil não podem ser observadoras. Elas são parte da capacidade de entrega de soluções, porque conhecem os territórios, atuam junto às comunidades e ajudam a conectar e compromissos internacionais às realidades locais.
Sistemas alimentares justos dependem de financiamento bem coordenado, transparente e focado no povo.
Como tirar os compromissos do papel
O desafio agora é transformar compromissos internacionais em políticas concretas, capazes de chegar aos territórios e responder às desigualdades de forma integrada.
Ao longo de 2026, essa agenda deve avançar em diferentes espaços: no monitoramento da Declaração de Belém no âmbito da UNFCCC, nas discussões preparatórias para a COP e na Assembleia Geral da ONU, além das Reuniões Anuais do Banco Mundial e do FMI, previstas para outubro.
Também deve ganhar força o modelo Ready–Set–Go, debatido pela Aliança Global, que propõe alinhar recursos internacionais em torno de planos nacionais liderados pelos próprios países. A proposta é tirar compromissos do papel sem criar mais uma estrutura burocrática.
Para a Ação da Cidadania, enfrentar a fome também exige transformar a forma como o financiamento global funciona. Não faz sentido financiar separadamente crises que acontecem juntas na vida real.

