A Cor da Fome: Racismo Estrutural e o Direito ao Prato

· Artigos

A fome no Brasil tem cor. Se em 1960 Carolina Maria de Jesus já denunciava que o progresso era seletivo, em 2026 a segregação ainda se manifesta pela insuficiência do salário mínimo. O abismo entre o valor nominal e o custo de vida real prova que a segurança alimentar ainda é um privilégio distante para a maioria da população negra.

Segundo o DIEESE (2024), o salário mínimo necessário para cobrir despesas básicas deveria ser quase cinco vezes superior ao atual. Essa defasagem asfixia o poder de compra e impõe às famílias uma escolha trágica entre pagar o aluguel ou garantir a comida. O impacto desse cenário é racializado: a insegurança alimentar grave é 70% maior em lares chefiados por pessoas pretas ou pardas, atingindo severamente as mulheres negras, que lideram a resistência para alimentar suas famílias em contextos de extrema precarização.

Reconhecer que a fome é um subproduto do racismo estrutural é o primeiro passo para desenhar políticas públicas eficazes. Por isso, nosso advocacy foca no fortalecimento do Programa Nacional de Alimentação Escolar. Atuamos em duas frentes: na defesa do reajuste dos repasses federais às escolas e na priorização de comunidades quilombolas e produtores negros na cota de 30% da agricultura familiar. Ao fortalecer essa cadeia, garantimos que comida de qualidade chegue a quem mais precisa. Para muitos jovens negros, a merenda escolar é o pilar que sustenta sua nutrição e sua permanência na escola.

Além da educação, lutamos pela regulamentação das Cozinhas Solidárias e pelo apoio aos Bancos de Alimentos dentro do SISAN, consolidando-os como políticas de Estado permanentes. Carolina Maria de Jesus nos ensinou que "a cor da fome é amarela". Nossa missão é garantir que o salário mínimo se torne, de fato, uma ferramenta de justiça social. Somente combatendo a discriminação econômica e salarial poderemos garantir que a fome deixe de ser uma realidade no Brasil.