A fome, os impactos da crise climática e a desigualdade racial não acontecem separadamente. No Brasil, os dados mostram como essas questões se sobrepõem — e por que olhar para elas de forma articulada também importa para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Mesmo com a redução da insegurança alimentar no país, a desigualdade racial permanece. Segundo a PNAD Contínua, divulgada pelo IBGE em 2025, 73,8% dos domicílios em situação de insegurança alimentar grave têm pessoas pretas ou pardas como responsáveis. Entre os domicílios nessa situação, 56,9% têm uma pessoa parda como responsável, mais que o dobro dos 24,4% com uma pessoa branca.
Ao mesmo tempo, análises do IX Relatório Luz da Sociedade Civil, do GT Agenda 2030, apontam que desastres como deslizamentos, enchentes e secas extremas, associados à escassez de água potável, atingem de forma desproporcional territórios periféricos e tradicionais, comprometendo a subsistência local, a produção agrícola familiar e o abastecimento dessas comunidades.
Essa realidade ajuda a compreender a conexão entre três Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: o ODS 2 — Fome Zero e Agricultura Sustentável, o ODS 13 — Ação Contra a Mudança Global do Clima e o ODS 18 — Igualdade Étnico-Racial.
Três objetivos, uma leitura articulada
A Agenda 2030, adotada pela ONU em 2015, reúne 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e 169 metas. Organizações da sociedade civil no Brasil e em outros países do Sul Global vêm apontando que os ODS oficiais não nomeiam explicitamente o racismo como determinante estrutural das desigualdades.
É nesse contexto que surge a proposta do ODS 18 — Igualdade Étnico-Racial. Lançado oficialmente no Brasil em 2024, o objetivo é voluntário: a ONU continua reconhecendo formalmente 17 ODS, enquanto o ODS 18 é adotado no contexto brasileiro e apresentado internacionalmente como uma contribuição do país.
No Brasil, o ODS 18 conta com uma Câmara Temática na Comissão Nacional para os ODS (CNODS), coordenada pelo Ministério da Igualdade Racial. A proposta é tornar o combate ao racismo um eixo transversal e mensurável do desenvolvimento sustentável.
Essa perspectiva aproxima agendas que já estão relacionadas na realidade: o ODS 2 trata do enfrentamento à fome e da agricultura sustentável; o ODS 13, da ação climática; e o ODS 18, da igualdade étnico-racial.
Uma agenda que exige articulação
A Ação da Cidadania integra o GT Agenda 2030 e, desde 2021, contribui para o levantamento e a análise de dados relacionados aos ODS 1 e 2 no Relatório Luz da Sociedade Civil.
A atuação em rede também envolve organizações e espaços como o Observatório do Clima e a Rede por Adaptação Antirracista, articulando segurança alimentar, adaptação climática e equidade étnico-racial.
A leitura conjunta dos ODS 2, 13 e 18 reforça que enfrentar a fome e os impactos da crise climática também exige tornar visíveis as desigualdades raciais que atravessam essas agendas.

