Quem é a Confluência Sul-Sul: uma coalizão construída a partir dos territórios

Co-liderada pela Ação da Cidadania, a nova coalizão global aposta em saberes locais para mudar a rota da crise climática e mostrar toda a força que o Sul Global já tem para enfrentá-la

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Muitas das respostas mais eficazes para a crise climática nascem de quem vivencia seus impactos diariamente, e não apenas dos grandes centros de decisão. É sob essa premissa que atua a Confluência Sul-Sul, uma coalizão internacional de organizações da sociedade civil nascida da desigualdade ambiental e econômica. Co-liderada pela Ação da Cidadania em parceria com o Instituto de Referência Negra Peregum, a iniciativa articula países em desenvolvimento para garantir que a proteção social, a segurança alimentar e o combate ao racismo ambiental ganhem mais espaço nas instâncias globais de decisão.

A estrutura e o próprio nome do grupo carregam um peso histórico e filosófico marcante. Para embasar sua atuação, a coalizão vai além das tradicionais Epistemologias do Sul — conceito do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos —, propondo uma reflexão sobre como o conhecimento gerado nos países em desenvolvimento também merece reconhecimento próprio, e não apenas validação externa.

A verdadeira inspiração nasce de pensadores de base, a exemplo do mestre quilombola brasileiro Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo. Ele propõe que não basta "decolonizar"; é preciso "contracolonizar".

A força da coalizão está justamente no conceito de "confluência": saberes diferentes que fluem juntos, como rios que se encontram para formar uma correnteza maior, sem perder a própria essência. O objetivo é ampliar essa lógica: mostrar que o Sul Global não é apenas vulnerável aos efeitos da crise climática, mas também um importante detentor das tecnologias sociais necessárias para enfrentá-la.

Um exemplo prático dessa potência vem do semiárido brasileiro. As cisternas para captação de água da chuva nasceram do puro saber comunitário, da necessidade urgente de sobreviver à seca. Em 2003, esse conhecimento popular transformou-se em política pública e, hoje, desdobra-se em uma rede de mais de 30 tecnologias sociais ligadas ao manejo de água, produção de alimentos e reúso, inspirando iniciativas em diversos outros países. É exatamente esse nível de inovação, construído com o pé no território, que a Confluência Sul-Sul trabalha para colocar no centro das soluções climáticas internacionais, e não mais às margens delas.

Para que essas soluções cheguem aos espaços de poder, a coalizão atua de maneira descentralizada e estruturada em seis frentes temáticas essenciais: Justiça Racial e Racismo Ambiental; Adaptação e Saúde; Soberania Alimentar; Clima e Comércio; Transição Justa e Energia; e Financiamento e Governança do Clima. Diferente de um modelo baseado em consultorias externas, cada uma dessas frentes é conduzida exclusivamente por organizações locais espalhadas por diferentes continentes do Sul Global. A lógica é simples: quem já vive e trabalha o tema no território é quem entende melhor o que precisa mudar.

A dinâmica de trabalho do grupo funciona sob quatro pilares simultâneos. Articula redes, ocupa as mesas de negociação onde as decisões são tomadas, produz estudos técnicos sobre as pautas e investe em comunicação estratégica para que a voz das bases alcance quem decide.

Esse não é um grupo criado para fazer figuração ocasional em conferências, e os resultados práticos já são evidentes. Apenas no primeiro semestre de 2026, a Confluência marcou presença em três grandes palcos globais consecutivos. Durante a Rio Nature Climate Week, a coalizão foi apresentada publicamente ao lado do Ministério dos Povos Indígenas, do Fundo Brasil de Direitos Humanos e da Embaixadora da Austrália no Brasil.

Nas negociações do SB64 em Bonn, na Alemanha, a articulação do grupo foi fundamental para apoiar o reconhecimento oficial da população afrodescendente pela convenção do clima da ONU (UNFCCC). Já na London Climate Action Week, a rede ampliou sua força política ao integrar a Aliança Pan-Africana por Justiça Climática (PACJA) diretamente à sua estrutura de governança.

Mais do que um projeto pontual, a Confluência Sul-Sul se consolida como uma infraestrutura permanente. Ao conectar quem produz alimento, quem defende a terra e quem luta por direitos em toda a extensão do mundo em desenvolvimento, a Ação da Cidadania e seus parceiros trabalham para que as políticas climáticas do futuro também reflitam a identidade e as respostas de quem realmente conhece a urgência da crise.

Com novas parcerias estratégicas já em fase de articulação em diferentes continentes, a Confluência Sul-Sul mostra que atuar em rede não é apenas um gesto de diálogo, mas uma ação estruturada e indispensável no enfrentamento coletivo da crise climática. Ao tecer essa rede global, a coalizão constrói poder de influência lado a lado com quem mais precisa, ajudando a ampliar a participação de populações historicamente marginalizadas nesses espaços de decisão.